Como Funciona o MELD-Na (Escore de Gravidade Hepática)
O MELD-Na é um escore de 6 a 40 que mede a gravidade da doença hepática crônica e é usado para ordenar a fila de transplante de fígado. Ele combina bilirrubina, creatinina e INR num MELD base e depois ajusta o resultado pelo sódio sérico. Quanto maior o número, maior o risco de mortalidade em curto prazo e maior a prioridade do paciente na fila.
Como o cálculo funciona
O MELD-Na sai em duas etapas. Primeiro se calcula o MELD base, depois, na maioria dos casos, ele é corrigido pelo sódio.
Etapa 1: o MELD base. Três exames entram na conta: bilirrubina, creatinina e INR. Nenhum dos três pode entrar na fórmula abaixo de 1,0, porque o logaritmo de um número menor que 1 é negativo, e o modelo não permite que um exame “baixo” reduza o escore. Então bilirrubina e INR abaixo de 1,0 são elevados para 1,0 antes de qualquer conta. A creatinina segue a mesma regra de piso em 1,0, mas também tem um teto em 4,0: valores medidos acima disso são cortados para 4,0. E há um caso especial importante: se o paciente fez diálise (duas ou mais sessões, ou 24 horas contínuas de CVVHD) na última semana, a creatinina é forçada para 4,0 na fórmula, não importa o que o exame de sangue mostrou.
Com os três valores ajustados, a fórmula é:
MELD = arredondar( 10 × [ 0,957×ln(creatinina) + 0,378×ln(bilirrubina) + 1,12×ln(INR) + 0,643 ] )
Etapa 2: a correção pelo sódio. Essa correção só entra em ação quando o MELD base é maior que 11. Se o MELD base for 11 ou menos, o escore final é o próprio MELD base (sempre com piso em 6, o mínimo possível na escala inteira). Quando o MELD base passa de 11, o sódio é primeiro limitado a uma faixa de 125 a 137 mmol/L (um valor de 118 é tratado como 125 na fórmula, e um valor de 141 é tratado como 137), e depois entra nesta conta:
MELD-Na = MELD + 1,32×(137 − Na) − 0,033×MELD×(137 − Na)
O resultado é arredondado para o inteiro mais próximo e sempre fica entre 6 e 40, os limites da escala.
Vale marcar uma confusão comum: esse é o MELD-Na de 2016 usado pela UNOS/OPTN, e não é a mesma coisa que o MELD 3.0, uma revisão de 2021 que acrescenta albumina e sexo e muda os coeficientes da fórmula. Se o programa de transplante que você acompanha já migrou para o MELD 3.0, o número vai divergir um pouco do que sai aqui, e isso é esperado.
Exemplo prático: de 16 para 22 pontos
Veja um paciente com cirrose, sem diálise recente, com estes exames:
| Exame | Valor |
|---|---|
| Bilirrubina | 2,0 mg/dL |
| Creatinina | 1,5 mg/dL |
| INR | 1,3 |
| Sódio | 130 mmol/L |
| Diálise recente | Não |
Rodando a fórmula do MELD base com esses três primeiros valores, o resultado é 16. Como 16 é maior que 11, a correção pelo sódio entra em jogo. Sódio de 130 mmol/L está abaixo do normal, e é justamente isso que a segunda fórmula penaliza: quanto mais baixo o sódio, maior o acréscimo ao escore. Nesse paciente, a correção soma 6 pontos, levando o MELD-Na final a 22, na faixa alta de gravidade.
O ponto central para reter aqui é esse: um MELD base de 16 pode virar um MELD-Na de 22 só por causa do sódio baixo, sem que nenhum outro exame tenha mudado. É por isso que dois pacientes com bilirrubina, creatinina e INR idênticos podem ter prioridades bem diferentes na fila, dependendo do sódio.
Calcule com os seus valores
Informe bilirrubina, creatinina, INR e sódio, e marque a caixa de diálise se for o caso, para ver o MELD-Na calculado na hora.
As faixas de gravidade
| Faixa de escore | Classificação | Observação |
|---|---|---|
| 6 a 9 | Baixa | 6 é o mínimo possível na escala |
| 10 a 19 | Moderada | |
| 20 a 29 | Alta | |
| 30 a 40 | Muito alta | 40 é o máximo possível na escala |
No extremo baixo, um paciente com bilirrubina 1,0 mg/dL, creatinina 1,0 mg/dL, INR 1,0, sódio 137 mmol/L e sem diálise tem MELD base igual a 6. Como 6 não passa de 11, a correção pelo sódio nem entra em ação, e o escore final fica em 6, o piso absoluto da escala. Classificação: baixa.
No extremo oposto, um paciente com bilirrubina 8,0 mg/dL, creatinina 3,0 mg/dL, INR 2,5, sódio 126 mmol/L e sem diálise tem MELD base de 35. Com o sódio bem abaixo do normal, a correção eleva o escore para 37. Classificação: muito alta, quase no teto da escala.
Erros comuns
O erro mais frequente na hora de calcular o MELD-Na não está nos exames de sangue, está na caixinha de diálise. Pegue o mesmo paciente do exemplo acima, com a mesma bilirrubina (2,0 mg/dL), o mesmo INR (1,3) e o mesmo sódio (134 mmol/L). A creatinina medida no laboratório é 1,0 mg/dL nos dois casos. A única diferença é se a caixa “diálise recente” está marcada ou não.
| Situação | Creatinina usada na fórmula | MELD base | MELD-Na | Faixa |
|---|---|---|---|---|
| Caixa de diálise desmarcada | 1,0 mg/dL (valor medido) | 12 | 15 | Moderada |
| Caixa de diálise marcada | 4,0 mg/dL (forçado) | 25 | 26 | Alta |
O escore salta 11 pontos, e a classificação sai de moderada para alta, sem que nada tenha mudado nos rins do paciente de fato. A única variável foi um clique numa caixa de seleção. Isso acontece porque, quando marcada, a diálise força a creatinina para 4,0 na fórmula independentemente do que o exame de sangue mostrou, já que a diálise remove parte do soluto que o exame mediria e mascararia a real disfunção renal. Conferir se a caixa de diálise reflete de fato o que aconteceu com o paciente na última semana (duas ou mais sessões, ou 24 horas contínuas) é o passo mais barato para evitar um escore errado.
Outros dois pontos que gera confusão na prática: bilirrubina e INR abaixo de 1,0 são sempre elevados para 1,0 antes do cálculo, então um INR de 0,9 entra na fórmula como se fosse 1,0. E o sódio fora da faixa de 125 a 137 mmol/L é puxado para o extremo mais próximo, então um sódio de 118 mmol/L é tratado como 125 na fórmula, não como 118.
Perguntas frequentes
O MELD-Na serve para qualquer paciente com doença hepática?
Ele se aplica a pacientes com 12 anos ou mais. Para crianças com doença hepática, o escore usado é outro, o PELD, que segue uma lógica diferente e não está coberto por esta calculadora.
Por que o sódio entra na conta se o MELD já usa bilirrubina, creatinina e INR?
Porque o sódio baixo, por si só, é um sinal independente de pior prognóstico em pacientes cirróticos, ligado à retenção de água associada à disfunção hepática avançada. Estudos mostraram que acrescentar o sódio ao MELD original melhorava a previsão de mortalidade na fila de espera, e por isso a correção foi incorporada ao modelo em 2016.
O MELD-Na e o MELD 3.0 dão o mesmo resultado?
Não necessariamente. Esta calculadora usa o MELD-Na de 2016 da UNOS/OPTN, que é o modelo descrito neste artigo. O MELD 3.0, de 2021, acrescenta albumina e sexo à conta e muda os coeficientes das outras variáveis. Os dois números costumam ficar próximos, mas não são idênticos, então vale confirmar qual modelo o seu programa de transplante usa antes de comparar valores.
A calculadora permite compartilhar o resultado com um paciente ou colega?
Sim. Ao usar a ferramenta na página completa (fora deste artigo), a URL se atualiza sozinha conforme você digita os valores, então é possível copiar o link e enviar para outra pessoa já com os dados preenchidos.
O MELD-Na substitui a avaliação clínica do hepatologista?
Não. É um número que resume quatro exames num único valor, útil para comparar pacientes e apoiar a discussão de alocação na fila de transplante, mas não é um diagnóstico nem uma recomendação médica. A decisão sobre prioridade de transplante e conduta clínica cabe sempre à equipe médica responsável, olhando o quadro completo do paciente.